quarta-feira, 16 de maio de 2007

Esmolar ou não

O ônibus parou no ponto. Uma pequena criatura surgiu na frente, como um foguete. Como um foguete, entranhou-se no ônibus. Pensei que com toda aquela energia, não parecia lhe faltar o leite cuja falta estava escrita num papel velho e mal escrito, distribuído aos passageiros. A mulher sentada a minha frente, uma conhecida de vista dos tempos de faculdade de História, perguntou ao pequenino quantos anos tinha: “sete”, ele respondeu. A mulher, respondeu com uma cara de espanto e nenhuma palavra. Resmungou, logo após, alguma coisa de “a mãe deve estar o esperando para recolher o dinheiro... Absurdo... Nesse frio...”. O trocador, sujeito com uma arcada dentária tão avantajada que parecia estar sempre sorrindo, ouviu e concordou, com todos aqueles dentes. E eu, catando todas as moedinhas possíveis para dar a esmola. A mulher era contra esmolas, certamente. Mas somos todos uns doadores de esmolas, concordando ou discordando. Ela provavelmente doa uma esmola diária à mãe, que espera ansiosamente que ela se forme. É assim: estudo que representa responsabilidade e construção de alicerces ou “ser alguém na vida” é a esmola social dela. A minha, pratinhas para a criança que deve esmolas a mãe que a alimenta. A corrida em direção ao sucesso é a esmola. O prestígio, o retorno merecido. Mas prestígio não é nada senão reconhecido pelos outros. São esses “outros” os recebedores de esmolas. E se eu, bem acomodada em meu assento, alimentada, aquecida, com moedinhas que não me farão falta, estou em posição de doar leite, que seja feita a minha vontade. Que eu “sirva” ao pequeno que serve à mãe. Somos todos uns servos. No entanto, o pior servo é aquele que não quer ver.

6 comentários:

Rodrigo disse...

Adorei o seu post. Nunca tinha pensado por esse ponto de vista...

Lady Metal disse...

Também nunca pensei desse modo...Parabéns!

Ronaldo Silva disse...

Por alguns momentos me desvencilhei da ambição desmedida de ser o melhor dos servos ( com "s" e não com "c", senao seria viado..)optei, espantado, como a fisionomia da mulher déspota do seu onibus, em contabilizar todas as moedas doadas ao longo desse meu caminho serviçal para os desvalidos. Concluo que estaria milionario..Dividi uma fortuna sem perceber.. E ao perceber me senti bem em ter percebido e te agradeço por ter despertado isso em mim..meu lado servo..So discordo da frase elementar de que o pior servo é aquele que não quer ver.. No meu modo de ver.. o pior servo é aquele que não quer ser..

Ronaldo Silva disse...

P.S.Declaradamente servo dos seus escritos, quero presentear vc, na data de hoje com o desejo atroz de que seja feliz, que essa data não seja um mero e festivo dia de aniversario..Que seja incomum como vc, desejar que se derrame uma chuva de felicidade sobre seu caminho é pouco..Acho suficiente desejar que a vida, plena de realizações dos seus sonhos,seja uma cruz reluzente, feita de isopor e prazer de carrega-la. Happy Birthday

vida privada disse...

também não tinha pensado sobre esse PRIsma antes de escrever... =)

Ok.. Combinemos que o pior servo é o que não enxerga que é?!

Muito obrigada pelas congratulações! Amém! E que você compile esses escritos e publique!

Vivi disse...

Definitivamente somos servos uns dos outros. E essa é uma questão complicada. Percebermos essa condição da qual absolutamente niguém está apto a fugir...